Evangelho de João com comentários - passo a passo - leitura #01

O Evangelho segundo João começa com uma afirmação solene que remete diretamente ao relato da criação:

“No princípio era o Verbo.” (Jo 1,1)

Desde a primeira linha, o evangelista situa Jesus antes dos tempos e antes da criação, no tempo do “princípio”, descrito no livro do Gênesis. Não se trata de um início histórico, mas da afirmação de uma existência eterna de Cristo.

O versículo culmina com uma declaração central e decisiva para a fé e prática cristãs:

“e o Verbo era Deus.”
📖 Jo 1,1

Essa afirmação constitui um dos pontos mais elevados não apenas da introdução, mas de todo o Novo Testamento. Nela, João professa de modo claro e inequívoco a plena divindade do Verbo, que mais adiante será identificado como Jesus: a explicação simples e direta é "Jesus é Deus". Toda a experiência do leitor - é fundamental destacar nesse ponto - será direcionada por essa realidade, que pode ser experimentada. Sem a compreensão desse ponto teológico inicial e central não se pode construir a experiência pessoal com Deus: tudo seria acúmulo de conhecimento inútil, sem a prática. Mas, por outro lado, a assimilação dessa realidade não deve ser automática, por pura aceitação de um dogma: deve se dar a partir da experiência espiritual - da percepção que decorre a partir da prática de petições e orações baseadas nessa teologia cristã. É esse o convite que Verbo da Escritura faz ao leitor: construir essa experiência de relação pessoal com Jesus, mediante seu espírito onipresente.

A identificação do Verbo - Jesus - como Deus não é isolada. Ela percorre todo o Novo Testamento e encontra coerência com o núcleo da fé cristã transmitida pela Igreja desde suas origens. Por esse conhecimento, Jesus não é apresentado simplesmente como uma criatura elevada, nem como um mero profeta ou intermediário espiritual comum, mas como aquele que participa plenamente da natureza divina, em comunhão eterna com o Pai. Isso se reflete, como será descrito adiante nesse trabalho, na forma como se dá a comunicação entre Deus e o ser humano, que define a dinâmica de petições e de respostas de Deus mediante o Espírito Santo.

O Verbo encarnado é o verdadeiro Deus - que existe como ser de duas naturezas: divina e humana. Essa natureza divina e humana, ao mesmo tempo, é explicada nos primeiros concílios da igreja. Ao mesmo tempo, essa afirmação não elimina a distinção entre as pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo.

A tradição cristã reconhece em Jesus os atributos próprios da divindade — como eternidade, autoridade soberana e poder sobre a vida — como verdades reveladas nas Escrituras, interpretadas à luz da fé apostólica e percebidas na prática religiosa cristã.

É precisamente neste ponto central do novo testamento que surgem controvérsias entre diferentes grupos religiosos. Algumas leituras enfatizam o título “Filho de Deus” como se ele implicasse inferioridade desse ser em relação à Deus, reduzindo Jesus a uma figura exclusivamente humana ou a um mensageiro privilegiado da parte de Deus. No entanto, no contexto bíblico e joanino, “Filho de Deus” não expressa diminuição, mas a relação eterna: o Filho participa da mesma natureza do Pai; é um com o Pai.

Quando a divindade de Jesus é colocada em dúvida, compromete-se o próprio sentido da encarnação e a fé cristã torna-se ineficaz. A vinda de Jesus ao mundo tem como finalidade tornar Deus conhecido e acessível aos seres humanos e com linguagem humana - pela sua própria presença. Como afirma o apóstolo Paulo, em Cristo “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9). Negar ou minimizar sua divindade não é apenas um debate conceitual, pois esvazia o núcleo da fé cristã, impossibilitando a comunicação direta com Deus.

Jesus Cristo é o Verbo eterno feito carne, a revelação plena e definitiva de Deus à humanidade. Essa afirmação se fundamenta em duas dimensões inseparáveis:

a) o testemunho coerente das Escrituras, do primeiro e do segundo testamentos, especialmente dos Evangelhos;
b) a fé viva da Igreja - experimentada -, preservada e transmitida ao longo da história.

A identidade divina de Jesus conduz a uma consequência central da fé cristã: ver o Filho é conhecer o Pai. Essa verdade não é uma elaboração posterior, feita por adeptos cristãos, mas uma afirmação do próprio Jesus:

“Quem me viu, viu o Pai.”
📖 Jo 14,9

Essa declaração significa que o Filho encarnado é a imagem visível do Deus invisível, conforme confirma o prólogo de João:

“Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que está no seio do Pai, é quem o revelou.”
📖 Jo 1,18

A mesma verdade fundamenta outra afirmação decisiva de Jesus:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.”
📖 Jo 14,6

Essa frase não expressa exclusivismo arbitrário, mas decorre da própria encarnação. Se o Filho é aquele por meio do qual o Pai se dá a conhecer, então o acesso pleno a Deus se realiza nele, sem intermediários espirituais de quaisquer categorias que se quiser considerar.

O Evangelho de João sustenta essa unidade entre Pai e Filho em diversas passagens:

“Eu e o Pai somos um.”
📖 Jo 10,30

Essa unidade não elimina a distinção entre as pessoas da Trindade, mas afirma a comunhão de essência. Ao assumir a condição humana, o Filho eterno entra na história sem deixar de ser Deus, sendo por isso chamado de “Filho do Homem”, expressão das escrituras originais que destaca sua verdadeira humanidade.

A encarnação de Jesus revela no tempo aquele que existe desde a eternidade. Tudo foi criado por meio dele, e nele a criação encontra sua luz e sua vida.

Reconhecer Deus como pessoal, consciente, dotado de vontade e amor é um elemento essencial da fé cristã. Essa compreensão distingue radicalmente a revelação bíblica de outras concepções que dissolvem Deus na criação, tratando-o como "força" impessoal, "energia" difusa ou princípio "cósmico" indistinto ou mesmo a própria "natureza".

Do ponto de vista da fé cristã, tais concepções desviam o olhar do Deus vivo e transcendente ao universo, criador de todas as coisas. Quando Deus é confundido com a criação, substitui-se o Criador por realidades criadas por Ele, abrindo espaço para formas de religiosidade que não conduzem ao verdadeiro encontro com Deus revelado em Jesus. Este é o princípio da idolatria condenada pelas escrituras: a troca de Deus por algo de sua criação. Tal troca abre espaço para que o lugar de Deus - o criador - seja ocupado por qualquer espírito de natureza contrária - uma vez que todos os anjos que servem a Ele jamais ultrapassam esse limite, não aceitando sequer comunicação com o ser humano, como deixam claro as escrituras.
Deste ponto de vista teológico, a adoração segura é aquela que chega a Deus por Jesus.
Os resultados da substituição de Deus podem ser imediatamente interessantes e agradáveis, mas provocam ruína a longo prazo.

Diante disso, surge uma pergunta essencial: quem é Deus?
Na fé cristã, entende-se que “Deus” não é um nome próprio, mas um título, e que “Jesus” é o nome da manifestação encarnada do Criador.

A fé cristã afirma, portanto, que, em Jesus, Deus se faz conhecido sem deixar de ser Deus, e o ser humano é chamado a responder não a uma ideia abstrata de deus, mas a um Deus que é a pessoa viva que chama, se comunica e que salva o ser humano para a vida eterna. Assim, a experiência de comunicação com Jesus será a experiência com o próprio Deus: sem intermediários, altamente enriquecedora e transformadora.

Fixada a perspectiva de leitura, que parte da divindade de Jesus, que é base, então poderemos passar a próxima leitura com possibilidade de melhor compreensão.

Convidamos o leitor a continuar acompanhando os próximos capítulos desta leitura, na qual avançaremos passo a passo, aprofundando o texto e suas implicações espirituais à luz do Evangelho segundo João.